sábado, 30 de agosto de 2014

Rafael - 3 voltas em torno do sol




Hoje faz 3 anos que sou mãe. 3 anos em que o "eu" passou a ser 2ª pessoa. E com a morte do "eu", brotou nós... Nós que nos ligam numa espécie de trilogia Nego-Jaque-Rafael, unidos de alguma forma indissolúvel e inexplicável, num arranjo harmonioso, mas também dissonante, em alguns momentos.

Nesses 3 anos, voltei a olhar tudo como se fosse a 1ª vez: o céu, a Terra e tudo entre eles de novo, pela 1ª vez. Vejo o mundo da minha janela e sereno. Vivo o milagre que é tudo isso quando olho em seus olhos de menino. Logo, você vai ganhar mundo.

Noto que somos esse milagre também. Dá vontade de mais viver. De não desperdiçar um só minuto sem ser grata, sem ser feliz, sem sentir toda essa poesia da qual nós somos 1 verso.

São apenas três voltas em torno do sol... e desde o início, a sua vida brotante, pulsante é um convite a ver o mundo, a sentir o mundo, a conectar-se. Foi preciso sair de mim e olhar para tudo ao redor. E a primeira coisa que vi foram seus olhos arregalados.

E quando os contemplo, quase choro de tanto amor, que dói... vejo um mundo de possibilidades. (e muitas outras voltas em torno do sol! É só o começo!)

Feliz Aniversário, meu pequeno amado!

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Tchau mamãe!


 
Hoje, meu coração está assim. E quero compartilhar uma dessas alegrias gratuitas, que a gente ganha da vida de vez em quando, sem estar exatamente esperando.
 
Já contei aqui e aqui, algumas dificuldades na hora de deixar o Rafael na escola, mas eis que hoje, ele simplesmente olhou pela janela da sala e disse "tchau, mamãe" com um sorriso lindo no rosto.
 
Depois de quase um ano, parece que ele está se adaptando ou está mais crescido ou sei lá. E assim, o dia hoje começou um pouco mais doce, um pouco mais bonito e a vida mais leve.
 
Não sei como é com cada um, mas eu tenho experimentado as mais genuínas alegrias em coisas simples que se manifestam no cotidiano da maternidade. É bem verdade que também experimento profundas e inúmeras contradições e sofrimentos, mas isto fica para outro post. 
 
 

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Série curtas - coisinhas engraçadinhas


Eis mais uma criação do Rafael. Você pode conferir a anterior neste post aqui.

É um liquidificador!!! (Tá bom. Lá vai a explicação: amarelo é o motor; vermelho e rosa é o copo; e verde e roxo é a tampa)

...

Outro dia, o Rafael precisou tomar soro na veia porque havia vomitado muito. E eis que quando o soro acabou, apareceu um pouco de sangue na mangueirinha. Então, ele perguntou:
_ Pai, o que é isso?
_É o seu sangue filho.
E o menino ficou tão empolgado que começou a gritar para todos da enfermaria:
_ Olha gente: é o meu sangue. Parece suco de uva. Olha! Olha!
Até no hospital a gente se diverte! (kkkkkkkkkkk)

...

O Nego e o Rafael estavam brincando de fazer túneis com almofadas, quando o pequeno pediu para que o Nego passasse pelo túnel. Aí o Nego disse que era muito grande e não caberia. O Rafael respondeu:
_ Pai, você é muito grande para ser pequeno!

(oi?)

...
_Mãe, por que você não quer brincar.
_ A mamãe está cansada e não quer brincar.
_Por que?
_Porque não, filho.
_ É só um pouco, para você relaxar...
(quem resiste? fui lá brincar, ou melhor, relaxar...)
...

O Nego disse, brincando: “Rafael, acho que esse umbigo aí é meu.”
_ Não é não papai, ele não tem cabelo. Kkkkkkkkkkkkkkkkk

...

_ Mãe, o padre é pessoa?

...

_ Mãe, se eu ficar sozinho, eu vou chorar. É muito chato viver sozinho...
(E é mesmo né!?)




quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Birra ou emoção?



Nunca deixo de me surpreender com a capacidade de compreensão do Rafael. Eu contei neste post aqui que ele sempre diz que não quer ir para a escola. Bom, ele já não diz mais isso. Ele pede para que eu fique com ele na escola e gruda nas minhas pernas e chora quando o deixo lá.

Quando isso acontece, percebo que essa situação desperta uma forte emoção ou comoção no pequeno (e em mim também) e me pergunto que atitude devo tomar para ajudá-lo. Se por um lado, eu preferia que ele não "sofresse" (o que faz com que eu questione todos os dias a minha decisão de iniciar a escolarização do Rafael tão cedo), por outro é também uma oportunidade para ensiná-lo a lidar com esses sentimentos sem negar ou reprimir o que ele sente.

Aí, um dia desses, segurei ele no colo, o abracei com firmeza e disse a ele que era normal sentir um pouco de saudade da mamãe e que não havia problema nenhum em ficar um pouco triste por isso, mas que ele tinha de ficar na escola e que depois a mamãe voltaria... E ele parou de chorar, desceu do meu colo e entrou na sala sem drama.

Fiquei parada alguns segundos até acreditar no que acontecera e me dar conta que bastou reconhecer e valorizar o sentimento real que ele estava sentindo para que o efeito visível do sentimento (choro e tristeza) se esvanecesse e o menino seguisse tranquilo para a sala. É ou não é de se surpreender?

Por mais que eu nunca tenha subestimado a capacidade de compreensão do Rafael, que eu nunca tenha aceitado a ideia de que "crianças não entendem", eu me surpreendo com situações como essa, em que o Rafael demonstra tamanha maturidade. Afinal, a habilidade de lidar com as próprias emoções é coisa rara até mesmo entre adultos, não é mesmo?

Saí da escola com o coração leve e a mente cheia de reflexões ao perceber, por meio desse fato, que muitas vezes, quando nossas emoções afloram, (nos adultos também) só precisamos que as pessoas que amamos (e que nos amam) se esforcem por compreender esses sentimentos sem esperar que eles sejam racionais e sem nos julgar. E que assim nos ajudem a "entrar na sala sem drama".

Isso não significa que ele sempre vai lidar bem com as próprias emoções ou que não volte a chorar ou fazer aquela carinha de cachorro que caiu do caminhão de mudança quando eu o deixar na escola. Afinal, os desafios na criação de filhos surgem diariamente com aumento crescente no grau de dificuldade. Mas me ajudou a perceber a importância de respeitar os sentimentos dele e que, muitas vezes, só isso será suficiente.


domingo, 17 de agosto de 2014

Livros para mães - A Máscara da Maternidade, de Susan Maushart



Enquanto inúmeros livros discutem os efeitos da mãe sobre o bebê, Susan Maushart subverte essa lógica, propondo que pensemos sobre os efeitos da maternidade e do bebê sobre as mulheres.

Partindo do fato, relativamente unânime, de que a nossa geração de mulheres conquistou um amplo leque de liberdades (sociais, econômicas, sexuais e culturais) nunca antes atingido pelas gerações anteriores, Susan Maushart vai investigando minuciosamente as diversas facetas dessa realidade (que inclui fortemente as questões da maternidade) e as problemáticas estruturais geradas com essa nova configuração.

Com um senso de humor bem particular e um sarcasmo refinado, Susan Maushart propõe uma reflexão sobre a maternidade do ponto de vista feminino. Visão essa, só possível de ser proposta por uma mulher e que é absolutamente recente se considerarmos que “A noção revolucionária de que o efeito dos filhos sobre as mulheres é igualmente merecedor de estudo foi identificada como uma 'mudança de paradigma' apenas em 1990."¹ 

Em sua pesquisa, ela aponta estudos que "Descobriram que metade - veja bem, metade -  de todas as mães com filhos com menos de cinco anos apresentam sintomas de intenso sofrimento emocional regular ou continuamente; que as mulheres têm cinco vezes mais probabilidade de receber um diagnóstico de problemas mentais no ano seguinte ao nascimento do primeiro filho do que em qualquer outro momento de sua vida."

Antes de nos armarmos até a cabeça contra todos os representantes do sexo oposto, ela lembra que "uma ironia facílima de esquecer é que a maioria desse patriarcado é constituída de mulheres." E que "embora seja verdade dizer que a Máscara da Maternidade foi forjada na bigorna do patriarcado, não é uma ilusão fabricada pelos homens."

Sob esse aspecto, é um livro feminista, mas não é acusatório e não coloca homens e mulheres em pólos opostos em que estas são vítimas daqueles. Fala de como as coisas são (ou parecem ser) sem polarizar, sem ser dialético. Ao contrário, apresenta uma visão interessante sobre a contribuição de homens e mulheres para o estado atual de coisas relacionadas a maternidade e suas inerentes dificuldades que acabam por pesar desproporcionalmente mais sobre os ombros femininos, de uma forma geral.

E se, por um lado, "parece natural (mesmo que também perverso) que os homens minimizem a maternidade, quer como ato criativo, quer como forma de trabalho humano digno." Por outro, é surpreendente o fato de que as mulheres fazem o mesmo. "E não se iluda - as mulheres fazem o mesmo", completa concluindo que "Esse medo e essa desconfiança mútuos que as mulheres sentem umas pelas outras é um elemento-chave para a preservação da Máscara da Maternidade e para "enfraquecimento" das mulheres em geral."

E se você tem alguma dúvida de que essa hostilidade materna mútua existe, pode conferir o que estou falando nestes relatos de blogueiras aqui e aqui.

Por essas e outras constatações, esse livro foi um achado em meio aos meus conflitos internos e foi uma coleção de "verdades" que eu vivia intensamente. O livro é dividido em 7 capítulos que se encadeiam gradativamente: o 1º explica o que é a máscara da maternidade; e os capítulos seguintes descrevem como essa máscara se manifesta na gravidez (2º capítulo), no parto (3º capítulo), nos primeiros meses com o bebê (4º capítulo), na amamentação (5º capítulo), na contradição entre carreira e maternidade (6º capítulo) e no casamento (7º capítulo).

Se você é mulher e mãe recente, vai perceber que cada um destes capítulos contém o grosso do que a própria Susan Maushart chama de "questões da maternidade" e que, invariavelmente, é assunto frequente em conversas de qualquer grupo de mães.

"As questões que giram em torno das maternidade parecem problemáticas porque são problemáticas - e não porque o patriarcado diz que são. As forças que constrangem mulheres hoje são, ao contrário, aquelas que minimizam as dificuldades que enfrentamos, insistindo em dizer que a maternidade não é lá grande coisa, afinal de contas."

Ao apresentar essas questões e demonstrar com inúmeros exemplos e extensa pesquisa que isso é mais comum do que ousamos imaginar, presta um grande serviço para as mães que se sentem inadequadas, porque no fundo, nos leva a concluir, todas ou a maior parte das mães se sentem assim.

Em menor ou maior grau, acho que todas as mulheres enfrentam estas questões, sobretudo no puerpério. E você pode conferir alguns relatos de mães blogueiras sobre isso aqui, aqui e aqui.

Não encontraremos no livro, no entanto, um caminho ou uma sugestão que aponte para uma solução. Isso ainda teremos que construir tanto no âmbito privado quanto no âmbito coletivo, buscando políticas públicas que levem em conta as problemáticas da maternidade/paternidade moderna, que envolvem o modo atual de como gestamos, parimos e criamos os filhos das gerações seguintes. Olhar para estas questões e atribuir-lhe a relevância fundamental que de fato elas tem é um importante legado sobre o qual este livro pode ajudar a lançar luz.

E concordo com ela quando diz que "Deixando de lado por um momento as fascinantes teorias evolutivas ou não, que tentaram explicar esse estado de coisas - e deixando de lado também a indignação que podemos sentir em relação a tudo isso - persiste o fato de que, na "lista de tarefas" para fazer progredir o conhecimento humano, a experiência das mulheres ainda está por merecer um lugar." e quando afirma que "A luta para desmascarar a maternidade é o primeiro passo para reconciliar o poder reprodutivo com direitos e responsabilidades sociais - um desafio peculiarmente feminino, com repercussões para toda a humanidade."

É um livro realmente surpreendente. Mães, leiam! Pais, leiam! Todos, leiam!

LivroA Máscara da Maternidade, de Susan Maushart, Editora Melhoramentos.


terça-feira, 12 de agosto de 2014

Livros para mães - A Maternidade e o Encontro com a própria Sombra, de Laura Gutman

É uma barriga!
 
Há um tempo estou planejando escrever sobre 2 livros que lançaram luz sobre inúmeros questionamentos e contradições que vivi no puerpério:  A Maternidade e o Encontro com a própria Sombra, de Laura Gutman e A Máscara da Maternidade, de Susan Maushart.

Li-os em momentos diferentes de maturidade materna. E cada um a seu modo me ajudou a perceber a maternidade que eu vivia e a refletir sobre ela. Ou o que muda com a chegada de um filho (em especial, do primeiro filho). Embora enumerar itens seja reduzir bastante a experiência avassaladora da chegada do 1º bebê.

Para começar, falarei sobre A Maternidade e o Encontro com a própria Sombra, de Laura Gutman. A maioria das mães blogueiras já leu ou, no mínimo, já ouviu falar sobre a psicoterapeuta familiar, Laura Gutman, e o seu famoso livro.


Eu o li há pouco tempo, ou seja, depois do puerpério e talvez por isso ele não tenha sido tão separador de águas para mim. Mas serviu para consolidar certas impressões que eu tinha sobre a maternidade e para conhecer esse conceito de sombra.

Laura Gutman expõe questões como depressão pós parto, gestação, parto, amamentação, dificuldades com o sono do bebê, função do pai, dentre outras, sob a perspectiva de que a criança (ser fusionado com a mãe) manifesta em seu corpo as angústias veladas da mãe e propõe soluções que passam, inevitavelmente pelo encontro com a própria sombra. É uma proposta bem interessante com conceitos da psicologia e da própria experiência de Gutman.

Ela defende a tese de que o bebê recém-nascido está em fusão com a mãe e, por isso, manifesta em si a sombra da mãe. Essa ideia me pareceu muito surpreendente e revolucionária, e também, em alguma medida, verdadeira. Em suas palavras, "o bebê sente como próprio tudo o que sua mãe sente, sobretudo o que ela não consegue reconhecer, aquilo que não reside em sua consciência, o que relegou à sombra."

Ela afirma que "Muitos aspectos ocultos de nossa psique feminina são desvelados e ativados com a chegada dos filhos." E isso é um fato que não é difícil de reconhecer. Assim, ela mostra que a maternidade, por sua força arrebatadora, abre um caminho em que "as dificuldades são possibilidades de crescimento." e identifica o puerpério como uma abertura de espírito.

Em outro trecho, ela afirma que "As mulheres puérperas têm a sensação de enlouquecer, de perder todos os espaços de identificação ou de referência conhecidos; os ruídos são imensos, a vontade de chorar é constante, tudo é incômodo, acreditam ter perdido a capacidade intelectual, racional." Para mim, essas palavras sintetizam bem tudo que vivi nos primeiros meses como mãe. E por serem tão verdadeiras, me sensibilizam, falam ao meu coração.

É um livro de acalento para mães cheias de culpas e medos (ou seja, todas). Além de trazer exemplos de situações reais que ajudam a ilustrar os conceitos que apresenta.

Para finalizar, registro uma frase consoladora para aquelas mães que se sentem atoladas pela culpa por não se enquadrarem nas regras dos manuais: "Existem milhões de maneiras ótimas de criar os bebês, tantas quanto há mães no mundo, desde que as adotem com total sinceridade em relação a elas próprias."

Sem dúvida, é um livro que vale muito a pena ser lido.

No próximo post falarei sobre A Máscara da Maternidade, de Susan Maushart.


domingo, 10 de agosto de 2014

Não é o papai!!! É dia dos Pais


O senso comum apregoa por aí que os filhos são mais apegados às mães e as filhas, aos pais. Mas aqui em casa não, não! O meu pequeno é muito mais apegado ao pai e por mais que eu o tenha gestado, parido, amamentado e passe muito mais tempo com ele, os louros vão para o pai.

O Nego tem a incrível capacidade de despertar o melhor das outras pessoas. E se doa gratuitamente nas relações que trava com os outros. É desses que gostamos fácil e que consegue ser amigo do mais variado tipo de pessoa, sem julgamentos. É o que poderíamos chamar de popular. Sé é assim com qualquer um, imagina com o rebento!

Adivinha quem ele quer que o coloque para dormir? o pai. Quem ele quer acompanhar em todas as vezes que sai de casa? o pai. Quem ele chama quando, eventualmente, acorda de madrugada ou pela manhã? o pai. É isso mesmo: o pai, o pai e o pai.

Se por um lado eu fico um pouco (tá bom, MUUUUITO) enciumada e carente do filho, por outro fico feliz que o pequeno tenha uma relação tão próxima com o pai. Daqueles que se ajoelha mesmo com o joelho operado, que empurra o balanço por horas, que o apara no escorregador e que canta docemente para ele dormir e acordar e que vela o seu sono. Carinhoso, cuidadoso, preocupado e muito atencioso.
(Depois de algumas sessões de carência materna, decidi não me frustrar tanto por essa "preferência" e curtir junto cada brincadeira e também os momentos que temos só nós dois.)

Vê-los juntos, me faz pensar na relação que tenho com meu próprio pai, entrecortada pelo divórcio, quando eu tinha apenas 7 anos. E, por mais que meu pai fosse presente e não tenha nos abandonado, eu sofria com a sua ausência. Durante muito tempo, eu olhava os pais caminhando com seus filhos na rua e sofria.

Meu pai sempre foi o meu herói. Sempre o admirei por suas ideias extravagantes e seus planos físico-quânticos meio loucos para mudar o mundo. Sua incrível disposição para o trabalho e pelo senso de responsabilidade. Acho especialmente valoroso que ele nunca reclame mesmo quando tudo está dando errado, que ele nunca culpe os outros ou o mundo pelas suas derrotas e que ele arregace a manga para resolver tudo sozinho (embora, às vezes, eu ache que ele devesse dividir). E sua vontade de se manter sempre presente e disponível, mesmo que não morasse mais comigo.

Gosto, sobretudo, de suas gargalhadas divertidas e contagiantes que fazem todo mundo rir junto. E herdei dele o gosto pela leitura, por histórias em quadrinhos, a facilidade de concentração e a sensibilidade espiritual que nos impele a buscar a Deus.

Além disso, é um vô carinhoso, cujo destino o presenteou com um netinho muito parecido fisicamente com ele. Esse post também serve para homenageá-lo! E vocês podem conferir a semelhança aí nessa foto:



E, por isso, foram preciso muitos anos para me curar dessa dor. E ver (viver) o Rafael com o Nego é uma dádiva. Sinto-me grata que seja assim, que ele e o Rafael sejam assim. Ao vê-lo com o pai, sorrio e sinto que alguma coisa cura-se em mim.

E, nesse dia dos Pais, fico até emocionada por essa história que o Nego e o Rafael estão construindo juntos. Há tanta sintonia, amizade e companheirismo. Eles se parecem um pouco. São destemidos, musicais, impertinentes e pirracentos.

Então, hoje, é um feliz dia dos pais, principalmente, porque é intenso, verdadeiro, visceral e todo dia!!!

Feliz dia dos Pais a todos os pais, especialmente ao meu pai e ao pai do meu filho!

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Expedição quixotesca para um convescote*



Num domingo inusitadamente frio "de com força", resolvemos ir ao Parque da Cidade em busca de um local para um convescote*. E foi uma aventura digna do herói de Cervantes e seu fiel companheiro Sancho.

No lugar dos cavalos, os camelos e uma cadeirinha para o Rafael. E já que o parque não é bem assim pertinho da nossa casa, pegamos um atalho no metrô rumo à estação central. Nada como não ter que dirigir, estacionar e coisas chatas de trânsito! Para mim, não há sensação maior de liberdade!!!

Pedalamos até a estação próxima à nossa casa e descemos as duas bicicletas com menino acocorado na cadeirinha pela escada rolante. Falando assim não dá para descrever o quão desengonçada foi essa proeza, mas tentem imaginar aí.

Esperamos o trem, segurando o Rafael para que não se jogasse nos trilhos para vê-los melhor, movido pela sua curiosidade perigosamente irracional. E, quando finalmente chegou, entramos com bicicletas, menino e mochila prontos para a nossa aventura de um domingo violentamente frio. Na estação central, subimos as escadas com a mesma total falta de desenvoltura da estação anterior e seguimos pedalando rumo ao Parque.

Não sem antes pararmos em frente ao nosso moinho de vento (fonte de água da Torre), sermos atingidos por seus jatos de água e pararmos para o tradicional "caldecana" com pastel na Torre de TV de Brasília.

Agora que matamos quem nos matava, seguimos ao Parque, sem um ponto específico a ir, mas com o objetivo de encontrar o melhor lugar para o nosso convescote. E, quando seguíamos em fila, avistamos um grupo tocando samba ou ensaiando para alguma escola de samba, que tinha uma espécie de Rita Lee baiana super empolgada batucando seu tambor. Nos detemos por uns minutos e até arriscamos tentar dançar aquele ritmo contagiante, mas o Rafael não se empolgou. Queria mesmo era andar de bicicleta. Seguimos.

Encontramos o local perfeito, mas não tão perfeito assim. Explico-me: era o lugar que materializava aquilo que nossas ideias diziam ser o cenário ideal para um convescote. Mas era um espaço relativamente pequeno e próximo de mais da pista de cooper/ciclismo/skate/patins. Era lindo. Só que não. Seguimos.

Então avistamos o local realmente ideal com espaço amplo, relativamente reservado, longe da pista e (cereja no bolo) com um parquinho de diversão ao lado. O Rafael esbaldou-se.



Ainda seguimos com a expedição até os pinheiros para avaliar e sentir. Mas as duas opções realmente válidas eram as anteriores. Expedição concluída. Frio intenso. Hora de ir embora. Seguimos de volta pela Torre de TV, passamos pela fonte de água, chegamos à Rodoviária e, na estação, um outro garotinho se encantou com o Rafael e perguntou se ele queria ser seu amigo. Brincaram um bocado na estação e dentro do trem. E o frio aumentava...

Começou a chover, ou melhor, caiu uma espécie de garoa gelada e quando descemos da estação, seguimos até em casa banhados por aquelas gotas geladas. Foi uma delícia. Fim da expedição.

Foi ou não foi uma aventura quixotesca?

(Quem ainda não leu o famoso Dom Quixote de la Mancha, leia por favor. É um livro hilário de tão engraçado e divertido, como essa nossa expedição. O Nego não acha, mas ele ainda não leu. Então...)
...

Mas afinal, o que é convescote? Acho que só o avô de uma amiga minha sabia, então curte aí o que Disse Onário:

*Convescote: Refeição ao ar livre, geralmente feita no chão e em comum com outras pessoas. = piquenique. Dicionário Priberam da Língua Portuguesa:  http://www.priberam.pt/dlpo/convescote

domingo, 3 de agosto de 2014

A beleza de uma noite sem dormir...


Só quem é de Brasília (ou de alguma outra região com clima de deserto) entende o que quer dizer umidade relativa do ar abaixo de 40% ou menos. E sabe que estamos justamente nessa estação da seca. E conhece bem as consequências respiratórias disso, sobretudo, nas crianças.

Aqui só existe duas estações: seco e frio ou seco e quente. E é por isso que nunca soube dizer exatamente quando é verão, inverno, outono ou primavera. Em Brasília, isso não existe. Ou melhor, existe sim, mas de outra maneira: acordamos no inverno, almoçamos quando chega o verão e antes de dormir já terá chegado a primavera e o outono. Todas as estações num dia só, todos os dias. Tudo isso sob a beleza de um céu deslumbrante e rodeados pela frieza e grandeza arquitetônica da cidade, perante os quais nos sentimos tão somente pequenos.

Brasília é linda sim. Mas de uma beleza que se revela aos poucos. É uma cidade que silenciosamente e misteriosamente desnuda-se, vagarosamente, em cada colorido ipê, em cada outro pequeno detalhe secretamente revelado. É preciso deter-se, pousar o olhar e admirar-se. Leva tempo para que sua beleza tímida resplandeça fulgurante como os raios de sol sob o céu do cerrado.

A despeito de toda essa beleza, viver nessa cidade com clima de deserto é um "cof, cof" sem fim. O Rafael está assim hoje: tosse seca, como o clima de Brasília. E belo, como o céu dessa capital. Na noite passada, ele acordou inúmeras vezes. É impossível dormir tossindo tanto.

Ele me chamou daquele jeito doce: "Vem aqui mamãe, eu quero você."

Eu não queria ir. Queria que ele voltasse a dormir. 1, 2, 3 horas da manhã. Não sei que horas eram. Sofro com a tosse dele. Só queria que parasse de tossir. Que ele voltasse a dormir sereno como um anjo. Isso é paz. Isso é o céu na Terra.

1, 2, 3, 4, 5 vezes ele me chamou. Não dava para dormir sozinho com tanto cof, cof. Também é preciso deter-se e entregar-se. Então, cedi. Fui dormir com ele. Ou melhor, fui não dormir, com ele. Cheguei e me deitei ao seu lado.

Na penumbra, dois olhões disseram: "oi mãe". Se achegou a mim e senti sua mão pequenina e leve pousar-se na minha bochecha. Sorri. Era um carinho sonolento, seguido de um beijinho e doces palavras no escuro: "Mamãe, você é muito legal".

É impossível dizer quanta felicidade cabe nesse instante, apesar da vigília, apesar da seca, apesar da tosse, apesar de qualquer coisa que poderia ser um pesar, mas não é mais.

A maternidade, como Brasília, tem uma beleza que se descobre aos poucos, nos detalhes manifestados na convivência diária, nos segredos de amor revelados numa noite insone e tossida.

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