segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Por que dizemos não chore?



O Rafael, como as demais crianças que conheço, chora escandalosamente, desmedidamente quando está triste, frustrado, cansado ou qualquer outra emoção difícil. Ele não guarda essas emoções, não adia o sofrimento. Mas, logo em seguida, ele sorri singelamente, distrai-se com um brinquedo, oferece um abraço e já não se lembra mais da dor que passou.

Não parece libertador poder expressar nossas emoções e deixá-las fluírem para longe de nós através de lágrimas e gritos? Assim, libertamo-nos delas e podemos sorrir logo depois, como um sol fulgurante que surge, imperioso, após uma intensa e torrencial tempestade.

Há algo de mágico nisso, uma espécie de sabedoria inocente, um segredo de vida feliz que vamos perdendo à medida que crescemos e temos de nos adaptar ao que é aceitável.

Já adultos e conformados a negar ou esconder nossas emoções, dizemos "não fica triste" ou "não chore" para nossos filhos. Mas por que não chorar se é melhor deixar as angústias correrem para fora do coração? Por que não chorar se depois que toda a emoção liquefazer-se em lágrimas, haverá espaço para a alegria, quiçá para a paz.

Ao tentarmos "ensiná-los" a controlar suas emoções, corremos o risco de negá-las ou ensinar-lhes a sufocá-las, a ser meio falsos, a guardar seus rancores para depois, talvez para muito depois, meses ou anos. Entre essa nossa necessidade interior de expressar emoções e o incomodar o mundo, deve haver um caminho equilibrado que não sufoque uns e nem seja por demais impertinente aos outros.

Aqui em casa, quando o tempo e a paciência permitem, tenho feito assim: se estamos em casa, eu apenas o contemplo nessas horas e, no fundo, reconheço que ele pode chorar, que ele deve chorar. Às vezes, o acolho em meu colo. Às vezes, fico apenas ao seu lado esperando que ele chore toda a emoção que tem para chorar. Às vezes, deixo que ele se recupere sozinho sem interferir, como na foto acima. Quando o escândalo acaba, conversamos sobre o que ele sentiu, por que chorou e como podemos resolver isso. E, algumas vezes, não falamos nada. Ele já está bem, já deixou para trás.

Se estamos na rua, eu o ajudo a perceber que o choro estridente incomoda as outras pessoas, esperando que ele aprenda a equilibrar as suas necessidades de expressar emoções com a necessidade de silêncio dos outros. E, assim, perceba que os atos dele exercem algum efeito sobre o mundo e as pessoas que o rodeiam.

Observando o Rafael e sua doce infância, contemplo o segredo de uma vida inteira, que vai se manifestando sem pressa no convívio diário com a riqueza que existe na infância.

Observando-o, percebo que preciso, como ele, libertar-me das emoções difíceis, seja em lágrimas, seja em silêncio. Preciso permitir-me sentir intensamente as dores para que, no minuto seguinte, eu esteja livre e leve como um sorriso de uma criança.

Bjos,

VdM

2 comentários:

  1. Filhos e a difícil missão de criá-los.

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    Respostas
    1. Oi Josimar,
      Difícil mesmo... mas também cheia de aprendizado, poesia e amor.
      Obrigada por comentar,
      Bjos,
      Jaque

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